Blog do CEO

Este Blog destina-se à troca de informações entre os associados do Centro de Estudos Ornitológicos e pessoas interessadas nas atividades desta entidade. Visite o site do CEO: www.ib.usp.br/ceo

Terça-feira, Dezembro 04, 2007

No Guaratuba, todos os caminhos levam ao Braz.

Desta vez, descemos até Bertioga com o propósito principal de verificar, obedecendo as recomendações do mestre curador, a existência por lá, quem sabe, do enigmático espécime que, não fosse pela excessiva força do tiro, teria sido o verdadeiro “tipo” de uma nova espécie.

Mas o recôndito “Varjão do Guaratuba”, resistiu à nossa curiosidade, e o rio só nos deixou ver melhor... sua foz.


Aqui constatamos que o Guaratuba é de fato um rio mágico, onde crianças andam sobre suas águas!

Nesse ponto, se presencia uma ferrenha guerra de ecossistemas, a mata querendo dominar o mar...

... e o mar querendo dominar o rio...

... jogando-o para lá e para cá, em seu curso terminal.

E, em meio a essa implacável disputa, pessoas amáveis vivem, tirando proveito desse extraordinário ecótono.


Joyce, que não sabe ainda pronunciar o “r”, recebeu uma rápida aula fonoaudiológica, onde, ao ser instigada a pronunciar rapidamente a palavra “boroa”, quase foi capaz de pronunciar “broa”.

O Guaratuba é, de fato, um rio misterioso. Já o cientista, nos testemunhos mortos da geologia, foi buscar as reminiscências da infância desse rio, descobrindo ter tido ele seu curso radicalmente alterado, pois fugia para o planalto, sendo então “capturado” pelo mar e assim, por ele conquistado.


Deixamos o Guaratuba com a sincera promessa do Adriano e de sua esposa, de nos conduzirem, em breve oportunidade, rio acima, para assim atingirmos de vez, as vísceras de seus históricos segredos.

Mas não sem antes observarmos algumas aves de suas praias...

Quero-quero, Vanellus chilensis.

... ou de sua mata ciliar...

Chororozinho-de-asa-vermellha, Herpsilochmus rufimarginatus.

... e algumas flores da restinga que o cerca...

... e, para melhor aproveitar a amenidade desse dia para a passarinhagem, indagamos sobre um bom caminho rumo à Serra, quando todas as informações e direções nos levaram ao Braz.

No Braz, uma cordial recepção, onde, os jardins desse tosco, mas criativo artesão, já o apresentou para nós, como um persistente observador dos bichos da mata.

Quem sabe, não quis ele aqui representar a si próprio, preterido e isolado por aqueles que por tantos anos serviu, com essa fauna acossada, em seu último refúgio?

Olhos atentos, também para o céu, o Braz nos alertou de um gavião-pombo que por ali passava. Qual será?

... e nos encorajou a seguir por essa trilha, que tem “três dias de caminhada”: mais segredos, portanto, para serem um dia desvendados!

Na “trilha do Braz” que, à medida que se caminha, vai-se contemplando novas fisionomias da floresta, pudemos ver algumas aves típicas de cada um desses ambientes, como o garrinchão-de-bico-grande...

Cantorchilus longirostris.

... o bico-virado-miúdo...

Xenops minutus.

... e o surucuá-grande-de-barriga-amarela.

Trogon viridis.

Uma breve entrada pela mata à procura dessa voz...

Pintadinho, Drymophila squamata.

... e já se depara um santuário!

E por todo esse chão, a vida aproveita cada pequeno espaço...

... mesmo que para ficar à espreita de alguma incauta criatura!

No pé da Serra, um cenário vivo dá passagem a um riacho...

...que, trazendo o alimento indispensável para toda essa vida, abre pela pedra o seu eterno curso.

Pedras e mais pedras...

E lá vamos nós também, aproveitando agora o sentido da gravidade, por esse “long way home”!

E nessa despedida, ainda um tempo para, no meio da mata, surpreender o descanso de aves noturnas...

... ou o tangará...

Chiroxiphia caudata.

.. ou a fêmea da rendeira...

Manacus manacus.

... e os lilliputs!

E assim deixamos o Braz, à sorte de seu destino, e dos que não são capazes de se curvarem para perceberem a extraordinária beleza que em cada palmo dessa terra se encerra.

Texto e fotos: Luiz Fernando Figueiredo

Quarta-feira, Novembro 14, 2007

Faça seca ou faça chuva, a vida se perpetua em Jataí...

Jataí, como um enorme quintal da pequena cidade de Luis Antonio, resta ali como uma ilha em meio ao mar de canaviais que hoje oprime a paisagem dessa região. E lá dá guarida, como último refúgio, a uma interessante fauna.

Quando chegamos, já os entornos da sede da Estação Ecológica nos dão uma amostra da beleza desse lugar...

... neste caso aqui criada pela estética de algum inspirado jardineiro...

... que, certamente, esforçou-se ao seu limite, para nos dar tão agradável recepção...

... ou, quem sabe, já preparar aqui nossos olhos para melhor contemplarmos depois, os jardins do verdadeiro Jardineiro.

E, se só por esses jardins ficassemos por todo o tempo de nossa estadia, mal não teria sido o investimento dessa viagem, pois por aqui já se pode ver apreciável amostra dessa bela avifauna de mais de três centenas de espécies, e de sua história, como a seriema,...

... o sabiá-do-campo...

... o pica-pau-do-campo...

... o periquito-de-encontro-amarelo...

... o suiriri-cavaleiro...

... que se mistura à história da arquitetura que aqui um dia se fez.

E muitas dessas aves vêm visitar esses jardins e edificações, como se pressentissem que o objetivo das pessoas que aqui vivem, é simplesmente sua proteção, como o sabiá-do-campo, que a um exíguo arbusto, confiou a guarda de sua prole...

... ou essa coruja-buraqueira, que, orgulhosa, parece saber que é ave mais fotografada e filmada desse lugar!

E para completar essa agradável chegada, um tímido morador do lugar parece que quer conosco fazer novas amizades.

Com a ansiedade em alto nível, em nossa primeira saída, ainda perto da sede, já vimos um pequeno bando de patos-do-mato, que vêm aqui comer restos de milho da lavoura.

Jataí surpreende pela diversidade de seus ambientes, que se sucedem ao longo de extensas estradas, bem preparadas para a pesquisa e a contemplação desse lugar.

O lago maior, onde novamente vimos, mais esquivos, os mesmos patos-do-mato...

... as matas fechadas, por onde se pode andar por providenciais trilhas...

... e assim contemplar seu enfeitado sub-bosque...

... as matas ciliares...

... morada preferida do pica-pau-anão-escamado...

... e de outros inquilinos menos familiares...

... e os lagos ao longo da várzea do rio, nessa época um tanto secos, motivo por não termos encontrado ali algumas aves “pantaneiras” que também os visitam...

... e os riachos, que em alguns pontos permitem repousantes e terapêuticas submersões!

Numa pausa para o almoço, aproveitamos a proximidade de Ribeirão Preto para brindarmos o aniversário do Adilson com o bom chope, de seu mais tradicional e folclórico fornecedor.

De volta, ao lugar que já tanto havíamos admirado, percebemos que a cada passo que déssemos, um novo quadro se encenava, como num filme cuidadosamente elaborado.

E novamente vamos, agora em busca do típico cerrado, e de seus fiéis moradores. Pudemos ver, como consequência da longa estiagem, o contraste do capim ressecado com a verdura das plantas que vão buscar nas profundidades o seu vigor.

Mas há perigos também por aqui, melhor mudar um pouco o curso de nosso caminho...

... onde vemos que, protegidos por essa guarda bem armada, jaz um jardim natural, quem sabe onde aquele jardineiro veio buscar sua inspiração.

Um convite irrecusável para contemplar os detalhes deste jardim, obra viva do Mestre dos jardineiros...

... que com seu farto pincel, não fez economia de cores para tanto verde...

Frutos de gabiroba.

Fruto de araticum.

... tantos amarelos...


... rosas...

... brancos e amarelos...

Flor de Pequi.

... tantos amarelos e verdes...

... rosas e brancos.

Um convite também para, numa ficção lilliputiana, voltar a passear pelos fractais...

... e fazer novas genuflexões...

... para bem observar, em meio à secura desse capim, essas mágicas aparições.


Típicas desse ambiente, vimos por aqui o papa-formiga-vermelho...

... a choca-barrrada...

... e a esquiva e frenética maria-barulhenta, que lutou bravamente contra o foco da máquina fotográfica!

Ainda nesse caminho surpreendemos um cangambá, que fugiu tão logo nos viu, só deixando flagrar como prova, sua bandeira fedorenta.

Outros, que também vimos, como o cervo-do-pantanal e um veado catingueiro, nem sequer esperaram pelo disparo da máquina.

Terminamos a tarde à beira do rio Mogi-Guaçu...

... onde, na sede de pesquisa da Universidade de São Carlos, nos encontramos com um alegre grupo de excursionistas de uma escola de Luis Antonio, hábeis em serem fotografados!

Com o entardecer, as aves diurnas retornaram para seus pousos...

... e um sovi, aproveitando-se dessa penumbra, veio fartar-se de estranhas cigarras, que muito bem poderiam substituir as sirenes dos carros da polícia!

Mas noite também é vida intensa em Jataí. De volta pela estrada ainda paramos para observar um curiango, encandeado pelo farol...

... e seu desprotegido filhote...

... ou a fuga rápida de um tapeti.

Mais à frente, outras dezenas de olhinhos refletidos na estrada não eram mais que mariposas sugando os frutos caídos de maduros.

Em nossa última manhã, ávidos por aproveitar ao máximo esses derradeiros minutos, ainda pudemos em um brejão, atordoados pelo ataque dos mosquitos, atrair com o play-back e registrar o curió.

Levando embora uma extensa lista de aves registradas, e alguns megabites de sua biodiversidade, deixamos Jataí sob mansa chuva...

... mas suficiente para transformar já conhecidas aves em estranhos espécimes.

Amigos que ali fizemos, vieram se despedir...


... e entregamos de volta, essa hospedaria que tão confortavelmente nos acolheu, àqueles que devem ser, esperamos que para sempre, os legítimos moradores desse lugar.

Textos e fotos: Luiz Fernando Figueiredo.

Domingo, Outubro 21, 2007

Patos, pedras e comida temperada a fogo de lenha, no Vão da Babilônia.

Chegamos já bem tarde da noite no Vão da Babilônia. Acompanhando os faroletes do carro do Klaus, que gentilmente se dispôs a nos levar, pelos sinuosos trajetos das montanhas, tivemos, como primeira visão desse paraíso, a quase completa escuridão.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo

Acordamos com a algazarra das criações, em sua pacífica convivência...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo

... e com o canto de diversas aves que, confiantes na inofensividade dos moradores do lugar, misturam-se aqui aos animais domésticos, como o canário-da-terra...

Sicalis flaveola. Foto: Arthur Macarrão.

... que se confunde com as cores do pomar...

Sicalis flaveola. Foto: Luiz Fernando Figueiredo

... o tico-tico-do-campo...

Amodramus humeralis. Foto: Arthur Macarrão.

... o irrê...

Myiarchus swainsoni. Foto: Arthur Macarrão.

... e o papa-capim-de-costas-cinzas.

Sporophila ardesiaca. Foto: Arthur Macarrão.

E só então, o sol já alto pela demora de nosso descanso, e os cavaleiros já de partida para a cavalgada...

Vinícius. Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

pudemos contemplar esse exuberante cenário...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

...e constatar que ali todos os olhares se enfeitam com essa inabalável moldura...

Macarrão fotografando. Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

... de contrafortes e escarpas, ladeiras e despenhadeiros.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Nossa primeira aventura foi aceitar o desafio da escalada do morro Santa Maria...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo

Mas antes, preparando o fôlego, uma estratégica parada para observar uma das jóias do lugar.

Bico-de-agulha-de-rabo-vermelho, Galbula ruficauda. Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

E depois enfrentar a ladeira...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

...onde mãos ancestrais, dificultando ainda mais esse árduo trajeto, construíram a “Muralha da Babilônia”.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Pedras, pedras, pedras...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

E lá no alto, deslumbrados com a amplidão dessa paisagem...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

... e afetados, quem sabe, pela influência mística da altitude, nos perdemos, cada um por um caminho.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Onde estarão?

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Nessas alturas, nos campos rupestres, a vida é árdua! Sol e vento castigam continuamente a teimosia desses pioneiros...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

... que mesmo assim, ainda florescem...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

... e perpetuam sua genética...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

... mesmo que timidamente...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

... se adequando à secura desses lugares, ...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

... mas sempre com excepcional beleza.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

E basta um olhar mais atento e poderemos ver aqui a fronteira da vida!

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

E, se nos humilharmos de joelhos, como se quiséssemos, imitando o apóstolo, nesta terra deixar depositado um beijo, veremos que naquilo que parecia simplesmente um árido chão em que pisamos, vicejam exuberantes florestas fractais.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Blocos de pedra ainda resistem como monumentos, protegidos por um manto de vida.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Mas nessas paragens inóspitas, a regra é a solidão...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

... e, somente nos grotões protegidos, a vida consegue mostrar pujança, nos convidando a ir ali conhecer os seus segredos.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Morro, morro, morro... pedra, pedra, pedra...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Tudo por aqui testemunha a demora que se esperou antes que se montasse esse fantástico cenário.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Ilesos, ao final dessa cruzada, tivemos a recompensa de um descanso na cachoeira...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

... e a reposição das energias perdidas com a singela comida temperada com o calor do fogo a lenha.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

De volta ao nosso serviço técnico, ficamos horas à margem do ribeirão Grande, na esperança de ver o pato-mergulhão, preciosidade maior dessa Serra da Canastra, mas nada mais vimos que seu abundante e bem camuflado alimento.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Também, com aquele mesmo objetivo, eu e Macarrão percorremos boa parte do ribeirão Galheiro em seu recôndito vale.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Mas em vão. Apenas o Adilson, graças a sua vocação trófica pela submersão...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

... viu sózinho chegar bem perto dele, vadeando pelo ribeirão, a tão esperada família, que logo, ao ver em seu habitat tão inesperada aparição, e tão estranha à filogenética desse lugar, deu imediata marcha-à-ré, perdendo-se rapidamente a montante.

Mergus octosetaceus. Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Mas ave é o que não falta por essa Babilônia! Facilmente denunciados por seus característicos ninhos, pudemos ver esse casal de cochichos...

Anumbius annumbi. Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

... e esse outro casal de joão-de-paus que, discretos em sua mineiridade, não quiseram fazer pose para uma foto.

Phacellodomus rufifrons. Foto: Arthur Macarrão.

No caminho pudemos ver também casas antigas cobertas com pedras.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Pedras, pedras, pedras...

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

À noite, disputando os insetos atraídos pelas luzes do pátio com um sapo-cururu, um bacurau-da-telha se fartava.

Caprimulgus longirostris. Foto: Arthur Macarrão.

Novo dia, novas esperanças: como pescadores abnegados, fomos fazer novas esperas à beira do ribeirão. Algumas aves logo vieram nos distrair, como se quisessem desviar nossa atenção de nosso principal objetivo.

Pula-pula-de-barriga-branca, Basileuterus hypoleucus. Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Trinca-ferro, Saltator similis. Foto: Arthur Macarrão.

Tucano-de-bico-verde. Ramphastos dicolorus. Foto: Arthur Macarrão.

Por fim, lá vêem eles novamente, à deriva da correnteza... Ao nos verem, invertem calmamente o curso de seu nado e novamente lá se vão...

Mergus octosetaceus. Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Corremos então pelo campo adjacente e, esgueirando por trás de um arbusto à beira do riacho pudemos ver, por uma fresta entre a folhagem, o descanso da família!

Mergus octosetaceus. Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Pudemos então, aliviados por termos a sensação de nossa plena missão cumprida, compartilhar à vontade por poucos mas intermináveis minutos, a fraternidade desse convívio.

Mergus octosetaceus. Foto: Arthur Macarrão.

E, quando novamente a família mostrou-nos preferir a intimidade de seu intocado refúgio...

Mergus octosetaceus. Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

... sentimos que era a hora de também nos irmos.

Foto: Arthur Macarrão.

Nos últimos preparativos para nosso retorno, percebo que um sentimento que julgava meu exclusivo, era na verdade coletivo: de já sentirmos todos, saudades de um lugar do qual sequer ainda havíamos saído.

Foto: Luiz Fernando Figueiredo.

Agradecemos penhorados ao Werner que, mesmo à distância, desde o início zelou como um heróico comandante, pelo bom êxito de nossa missão. E ao seu filho, Klaus, providencial guia. Ao Antonio Belchior, que em nossa rápida passagem por Passos para o jantar, já nos deu uma amostra da gastronomia que nos esperava por esses dias, com um típico “frango caipira com arroz”. A Gisele, bióloga apaixonada pela preservação da Canastra, pela visita que nos fez na Pousada e por valiosas informações sobre a Babilônia. E ao Reinaldo, maestro da Pousada Babilônia, e a toda sua orquestra, que mostrou-se, todo o tempo em que estivemos lá, como fiéis vassalos de nossos desejos.


Texto: Luiz Fernando Figueiredo.
Fotos: Luiz Fernando Figueiredo e Arthur Macarrão Montanhini.

Segunda-feira, Outubro 15, 2007

Nova espécie de ave migratória é registrada na cidade de São Paulo

(Os visitantes de inverno já se foram e agora, a cidade recebe os visitantes do verão)

Retornei para São Paulo no sábado retrasado e no primeiro dia de folga na cidade (30/09), fui realizar a contagem de setembro do monitoramento de aves aquáticas e migratórias que faço na região da represa do Guarapiranga e do Parque Ecológico do Tietê. Desta vez convidei o Marco Antonio Rêgo, um amigo do Museu de Zoologia da USP para me acompanhar na contagem. Fomos direto para a região da várzea do Rio Embu-Mirim, localizada próxima da cidade de Embu, por lá, registramos pela primeira vez na Bacia do Guarapiranga um grupo com aproximadamente 12 maçaricos-pintado Actitis macularius que até então não haviam sido registrados na região. Os únicos registros desta espécie para a região sul da cidade eram “duvidosos” e o primeiro registro documentado deste maçarico para o município de São Paulo foi feito em 2006 durante uma das etapas do Censo Neotropical de Aves Aquáticas (CNAA), realizado na cidade pela equipe do CEO.

Indivíduo de maçarico-pintado Actitis macularius registrado no PE do Tietê em 2006 (sobre pedra). Foto: Gilberto Lima.

Após a contagem no Embu fomos para o Parque Ecológico do Tietê e lá chegando nos deparamos com um grupo de maçaricos-de-perna-amarela Tringa flavipes e entre estes, dois maçaricos “diferentes” que nunca haviam sido registrados neste trabalho de monitoramento. Como estávamos sem as câmeras fotográficas profissionais, resolvi fazer algumas fotos com uma câmera digital compacta, para garantir o registro. Observamos os maçaricos por um bom tempo e depois fomos embora. Chegando em casa, tratei logo de comprar alguns filmes e na mesma tarde, sem perder muito tempo, retornei para o PE do Tietê para fazer novas imagens do registro, desta vez com a câmera e lente apropriadas. Consegui fazer as imagens, apesar da pouca luz e distância das aves, que neste horário, estavam se alimentando em outra margem da lagoa. Voltei para casa mais aliviado, pois sei da importância de se registrar estas aves migratórias no momento da primeira observação, pois elas podem levantar vôo e continuar sua viagem a qualquer momento, dificultando novos registros em dias posteriores.

Consultando a literatura fiquei em dúvida com relação à identificação correta destes maçaricos, pois este grupo de ave apresenta uma variação complexa de plumagem (inverno, verão, descanso reprodutivo, etc). A princípio pensei ser indivíduos de maçarico-branco Calidris alba, mas o bico era muito fino e comprido para ser esta espécie. Consultei alguns exemplares do MZUSP e comecei a desconfiar desta pré-identificação. Logo percebi que estes maçaricos “diferentes” apresentavam características semelhantes às do pisa-n'água Phalaropus tricolor, ou seja, bico mais fino e comprido, pernas curtas, coloração cinza clara nas costas, etc. Como não tenho experiência com este maçarico (pisa-n'água) na natureza, resolvi consultar alguns amigos ornitólogos para obter mais informações sobre esta espécie e tentar concluir com mais embasamento a identificação destas aves. Conversei com o André De Luca (SP), Luciano Lima (RJ), Vítor Piacentini (de SC, atualmente em SP), Fernando Straube (PR) e com o Prof. Luís Fábio Silveira da USP. A opinião destes colegas foi unânime, todos condordaram ser mesmo indivíduos de Phalaropus tricolor, pelas imagens analisadas. Depois de receber a colaboração de tantos especialistas, agrupei as informações disponibilizadas e comparei com as anotações de campo, percebendo que todas as observações feitas batiam mesmo com Phalaropus tricolor, inclusive o comportamento de alimentação, observado em campo. Com tudo isso, consegui finalizar com segurança a identificação destas aves.

Portanto, depois de uma semana de estudo, de longas conversas com especialistas e insistentes visitas de campo para fazer novas imagens dos maçaricos, podemos dizer que fizemos o primeiro registro documentado (disponível na literatura) do pisa-n'água Phalaropus tricolor para o Estado de São Paulo, acrescentando assim, mais uma espécie na lista das aves do município de São Paulo.

Os dois indivíduos do pisa-n'água Phalaropus tricolor separados por um maçarico-de-perna-amarela Tringa flavipes (localizado no centro).

O pisa-n'água Phalaropus tricolor é considerado um visitante setentrional, ou seja, esta ave migra no norte da América do Norte para o Sul da América do Sul e utiliza estas lagoas para descansar e se alimentar. Os indivíduos registrados em São Paulo estavam com plumagem de descanso reprodutivo. Nossas observações de campo foram feitas apenas no domingo (30/09/07), retornamos nos dias seguintes ao Parque e os maçaricos não estavam mais por lá.

Os dois indivíduos do pisa-n'água Phalaropus tricolor (são as aves menores, com pernas mais curtas) entre um grupo com 4 maçaricos-de-perna-amarela Tringa flavipes.

Gostaria de destacar o processo cauteloso que adotamos para identificar estes maçaricos, isso é muito importante dentro da ornitologia, assim como a documentação do registro.

Os dois indivíduos do pisa-n'água Phalaropus tricolor separados por um maçarico-de-perna-amarela Tringa flavipes (localizado no centro).

Estamos em pleno período de migração, os maçaricos já estão pelos brejos da cidade, temos que ficar de olho, ir para campo neste período e tentar fazer novos registros.

Os dois indivíduos do pisa-n'água Phalaropus tricolor se alimentando na lagoa do PE do Tietê.

As espécies mais comuns nesta época do ano na cidade são: maçarico-de-perna-amarela Tringa flavipes, maçarico-solitário Tringa solitaria e maçarico-grande-de-perna-amarela Tringa melanoleuca.

Obs: as imagens não estão com uma resolução muito boa, pois são imagens de registros e foram ampliadas para melhor visualização das aves.

Fabio Schunck
fabio_schunck@yahoo.com.br

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

Papagaio Mato Grosso



Esse papagaio foi filmado pela Sulamit em viagem ao Thaimaçu, refugio de selva a leste do cristalino, no rio São Lourenço, MT.

Segunda-feira, Agosto 06, 2007

NOTÍCIAS DE ITEREÍ

Avistei ao entardecer um Leucopternis adulto, em 30/07/2007 no topo do caminho do Morro Grande em Iterei. Fica a dúvida entre o lacernulata e o polionota. Muito embora, tenhamos vários registros do lacernulata, o porte desta poderia indicar para o outro. A ave de grande porte voava quando eu subia o morro de carro. Ela pousou numa galhada seca na beira. O gavião esperou, ficou de peitão branco, curiosamente me olhando por mais de 3 minutos. Finalmente , desistiu e foi-se embora. Belíssimo. Vôo majestoso: asas com aproximadamente dois braços de envergadura.


Além disso, no início da semana liberamos um beija-flor adulto, bem pequenino que entrou dentro da casa grande.


Outras aves que encontrei foi a saíra-capitão em bando, que tão
entretidas estavam alimentando-se de alguma coisa na borda da floresta, que pastavam tranquilamente a 30 cm de mim, sem absolutamente se importarem com minha presença - destaco que nesta ocasião estava vestida de verde bandeira.


Avistei também, perto do caminho às Marimbas, um saí-da-perna-preta, neste local os urus continuam piando e as saracuras comendo bananas.


Estão presentes também no momento na meia encosta das rugas das montanhas entre o morro grande e a guarita, um bando de macacos que assoviam - contudo, não
sabemos identificá-los (desde já, fica o convite para quem se interessar na identificação e estudos).


Continua habitando o lago Ramos, uma enorme jararacussu, no mesmo local, e tão
grande quanto a que há dez anos atrás foi aí capturada na presença da Profa. Alma Hoge , pelo Crispim Soares e pelo Ramos , aquela jararacussu prenha, levada por nós doada ao Butantan, que deu uma ninhada de 42 filhotes, tendo 38 sobrevivido, e possibilitado estudos importantes e co-publicados pela Dra. Fátima Furtado.


Fizemos um registro de algumas florações da época, em que também a canjerana e o limão cravo frutificam.


Mas, o maior destaque é para um conjunto de três galhas da "erva de passarinho" externamente com um diâmetro de 1,5 cm, marrom, abrigando cada uma delas colônia de bichos: vermes vivamente alaranjados.


Uma destas galhas estou encaminhando para o Depto. de Botânica da USP, para estudos. Na esperança de obter o mesmo sucesso que a galha da Tibuchina pulchra encaminhada por nós dez anos atrás, motivando os pesquisadores do IBUSP a realizarem várias coletas científicas desta galha em Iterei , tendo decorrido a identificação, a descrição da mesma e as sucessivas publicações acadêmicas orientadas e/ou co-produzidas pela Dras. Jane Krause, Nanuza Menezes e Dr. e Dra. Salatino.

Texto: Léa Corrêa Pinto.

Fotos: Gabriel Asa Corrêa Gruberger.

Domingo, Julho 15, 2007

JUQUERY, PARA SEMPRE!

Juquery certa vez lembrava o sofrimento e o desamparo. Hoje, simboliza a esperança de que a vida pode ter outro curso. Libertos muitos dos que ali estavam, considerados dementes por nossa incapacidade de aceitar a convivência com suas diferenças, nos espaços que ocupavam deixaram as ruínas de prisões hoje sem utilidade e, no seu entorno, uma preciosa paisagem.

Carlos Gussoni.

E ali está, enclavado no meio dessa região de mata atlântica, um resquício de cerrado, onde predominam os campos limpos, que sobem e descem os “mares de morros”, só deixando crescer, livres de sua secura, nos escondidos grotões, uma mata exuberante.

Arthur Macarrão.

Juquery é uma permanente surpresa. A despeito de tantas visitas, de tantas caminhadas, de tanto tempo ali despendido em contemplações por todos seus caminhos, toda vez que lá voltamos nos surpreende alguma nova cena, algum novo encontro.

Equipe pioneira no levantamento de aves no parque. Carlos Gussoni.

Certamente, a pujança dessa biodiversidade se deve a essa variedade de ambientes, pois, além dos extensos campos...

Carlos Gussoni.

... e das matas que se refugiam ao longo das fendas das montanhas...

Arthur Macarrão.

... e do cerrado, no seu estrito sentido...

Carlos Gussoni.

... há, ainda, ao longo da várzea do rio Juquery, extensos e intocados banhados.

Arthur Macarrão.

E nesse percurso, podemos então ver seus distintos moradores, como o arapaçu-do-cerrado, Lepidocolaptes angustirostris...

Arthur Macarrão.

... o canário-do-campo, Emberizoides herbicola...


Arthur Macarrão.

... a seriema, Cariama cristata, que vem passear pelos jardins das casas...

Arthur Macarrão.

... a noivinha-branca, Xolmis velata...

Arthur Macarrão.

... a choca-barrada, Thamnophilus doliatus, que se estufa e se balança como uma serpente ameaçada, quando se faz seu play-back...


Arthur Macarrão.

...e, na confiança de seu desprotegido ninho, o beija-flor-de-orelha-violeta, Colibri serrirostris.

Luiz Fernando Figueiredo.

Contagiado com nosso deslumbramento pela contemplação desse lugar, até um pequeno morador dali nos seguiu, fazendo-se de guia, até que os gritos de uma desavisada mãe o chamassem de longe e o viesse buscar, já com uma lanterna na mão!

Arthur Macarrão.

E haja fôlego, para subir tantas vertentes...

Luiz Fernando Figueiredo.

... e haja água para compensar tanto suor...

Luiz Fernando Figueiredo.

... de percorrer tantos caminhos, que nos enganam em sua distância...

Luiz Fernando Figueiredo.

... mas que compensa chegar ao topo do mais alto morro, o Morro da Baleia, que os moradores dali insistem em chamar de o “Ovo da Pata”...

Arthur Macarrão.

...e de lá, dessas alturas místicas, contemplar uma paisagem que até parece um sertão inexplorado...

Luiz Fernando Figueiredo

ou contemplar, nesses trajetos, as arvoretas retorcidas pelos sucessivos fogaréus...

Carlos Gussoni.

... que, a despeito da brava ação dos funcionários do parque, teimam em atingir nessa época boa parte de seus campos. Quem sabe, para garantir a permanência dessa paisagem?

Arthur Macarrão.

E o nascimento de novas vidas que correm para aproveitar seu espaço ao sol?

Luiz Fernando Figueiredo.

E quando, nesses trajetos intermináveis, nenhuma ave se depara, podemos aproveitar essa pausa para contemplar tímidos monstros pré-históricos.

Luiz Fernando Figueiredo.

Outros, ainda mais esquivos, deixam ver apenas sinais de sua presença.

Luiz Fernando Figueiredo.

Quando visitamos Juquery pela primeira vez, ainda ali se praticavam rallies que deixaram em alguns lugares, pronunciadas cicatrizes.

Luiz Fernando Figueiredo.

Também ali se praticavam vôos de objetos teleguiados, certamente hostis aos nossos emplumados voadores...

Luiz Fernando Figueiredo.

... ou outros, igualmente estranhos à singela naturalidade desse lugar.

Luiz Fernando Figueiredo.

Felizmente, por uma decisão enérgica da direção do Parque, esses impactos foram proibidos e hoje encontra-se ali, mesmo estando a pouca distância de uma densa urbanização, uma área de preservação que podemos dizer com segurança, que assim será para sempre.

Arthur Macarrão.

Mas Juquery é também eterna surpresa. Nem imaginávamos encontrar ali, no dia Nove de Julho, aniversário deste Estado, vindo certamente a jusante do rio Juquery, o joão-nordestino, Furnarius figulus, que, a exemplo de milhares de outros nordestinos, ao destino deste estado e dessa grande metrópole peregrina!

Arthur Macarrão.

Pois que aqui então seja muito bem vindo!


Texto: Luiz Fernando Figueiredo

Fotos: Arthur Macarrão, Carlos Otávio Araújo Gussoni, Luiz Fernando Figueiredo